A psicanálise

caminhos no mundo em transformação

  • Claudia Amorim Garcia

Resumo

“Vivemos em uma sociedade com a morte na alma, tomada pelo  tédio, pelo senso de futilidade, pela melancolia e pela pulsionalidade destrutiva; ou seja, supomos neste texto a existência de um fundo depressivo contra o qual se acionam, entre outras, defesas maníacas. ... mais evidentes do que o próprio sofrimento profundo que nos habita, e, quando se caracteriza nossa civilização como “do espetáculo” atenta-se, seguramente, para essa grande produção defensiva hipomaníaca, mas pouco se presta atenção aos vazios que ocupam nossos bastidores...”

Já nos habituamos com a precisão e articulação conceitual impecáveis a serviço de uma criatividade ousada e sustentada por sólida base teórico-clínica que caracterizam os escritos de Luís Claudio Figueiredo. Desta vez, no entanto, nos deparamos com uma novidade inesperada. Apesar de publicado em meados de 2018, depois de longa gestação de sete anos, A psicanálise: caminhos no mundo em transformação, em alguns trechos dedicados à análise do cenário psicossocial contemporâneo, nos surpreende pelo seu caráter premonitório em relação ao que viríamos presenciar no contexto da sociedade brasileira pós-2018 e, principalmente, hoje em tempos de pandemia do coronavírus. Assim, Figueiredo, numa discussão de aspectos intrapsíquicos e psicossociais, nos oferece uma leitura primorosa do conceito de narcisismo que vai sendo decomposto e recomposto cuidadosamente nos dois densos e extensos capítulos teórico-clínicos iniciais, precedidos por um prólogo de tributo a Freud, seguidos de dois capítulos “clínicos” nos quais o cinema e a literatura são objeto de leitura psicanalítica, e finalizada com a história preciosa da escuta analítica ao longo do tempo.

Iniciando com À guisa de prólogo: os pacientes com falhas na constituição narcísica e o legado de Freud. Figueiredo resgata do texto freudiano as origens das patologias narcísicas da atualidade a partir de breve passagem pelas “segundas teorias da mente” demonstrando como Freud já naquela época se dava conta de uma forma de sofrimento psíquico que situou entre a neurose e a psicose e denominou de “alterações do eu” (1937) atribuindo sua origem à ação violenta de defesas contra angústias muito primitivas. Novamente, em 1938, voltou a se referir ao que chamou de neurose grave, atribuindo sua origem, desta vez, a experiências traumáticas irrepresentáveis, nos primórdios do processo de formação psíquica, que afetariam o processo de constituição egóica, deixando o eu vulnerável a novos impactos traumáticos e, principalmente, à irrupção incontrolável do pulsional, situações que caracterizam as patologias narcísicas atuais.

Em De “Introdução ao narcisismo” aos transtornos narcísico-identitários: notas sobre os cem anos de pensamento psicanalítico, Figueiredo faz um apanhado exaustivo e preciso da produção psicanalítica sobre o conceito de narcisismo de 1914, com Freud, até as contribuições de Green e Roussillon nos últimos anos. Ao se referir, de início, às inovações e impasses metapsicológicos, psicopatológicos e no âmbito dos processos culturais que a formulação do conceito de narcisismo acarretou, Figueiredo já nos dá a dimensão do que vem a seguir.

Debruçando-se sobre o conceito de narcisismo no contexto da primeira das “teorias da mente” (1914 a 1921) o autor lembra como o novo entendimento do eu como objeto de investimento da libido narcísica não apenas representava uma ameaça para o arcabouço metapsicológico então vigente, questionando o dualismo pulsional entre pulsões sexuais e pulsões do eu, mas também atribuía ao eu inconsciente um novo protagonismo na esfera psíquica. Do ponto de vista psicopatológico, por outro lado, a definição de narcisismo como investimento libidinal no eu justificava a impossibilidade de tratamento psicanalítico das neuroses narcísicas, já que impedia a transferência com o analista. E, ainda, a projeção do ideal, herdeiro do narcisismo primário, sobre a figura do líder atestava a importância crucial do narcisismo na dinâmica grupal e nos processos de identificação no âmbito dos processos culturais e políticos de então e, certamente, também atuais.

Desafiado pela afirmativa corrente de que após 1920, o conceito de narcisismo aparentemente “desapareceu” do texto freudiano, Figueiredo se debruça, com afinco, sobre a tentativa de extrair do metal bruto da superfície o ouro escondido do narcisismo com outras roupagens e apresentações nos textos da segunda das “teorias da mente”. Assim, relendo 1920, aponta para o caráter narcísico tanto de Eros, na busca pela unidade e totalidade, quanto da pulsão de morte, no seu movimento regressivo e disruptivo de tentar atingir o nível zero de tensão psíquica. Em 1923, por outro lado, o papel de mediador atribuído ao eu no conflito psíquico teria efeitos nefastos sobre a economia narcísica do eu que passaria a se valer de defesas narcísicas eloquentes. Mas é na sua apreciação da nova teoria da angústia de 1926 que Figueiredo
mostra ainda mais claramente indícios do narcisismo ao se referir à disrupção narcísica ocasionada pela angústia e as defesas radicais de que se vale o eu a frente situações traumáticas. Por fim, a menção às alterações do eu, em 1937, e a definição dos neuróticos graves, no Esboço (1938/1940) atestam que o narcisismo e seus transtornos, ainda que latentes, já habitavam o texto freudiano na segunda das “teorias da mente”.

Passando à apreciação das contribuições da psicanálise pós-freudiana, Figueiredo faz considerações sobre Hartmann e Fenichel, representando a Psicologia do Ego, Federn, com sua leitura bastante singular, e Ferenczi, teóricos das décadas de 20, 30 e 40, de linhagem freudiana, que defendiam a importância do narcisismo na constituição do eu e a exigência do investimento libidinal pelo objeto primário como condição sine qua non para sua constituição. Entre suas contribuições originais, Figueiredo aponta a diferenciação hartmanniana entre o self (representação do eu) e o eu (instância intrapsíquica) que, apropriada e redefinida pelos anglosaxões, vem a se tornar elemento importante no entendimento das patologias narcísicas, e em Fenichel, a designação do desejo de retorno ao estado de narcisismo primário e a centralidade do atendimento das “necessidades primárias” pelo objeto para uma boa sustentação narcísica. Quanto a Federn, que claramente se diferencia da perspectiva estrutural e oferece uma “outra via” (FIGUEIREDO, 2018, p. 31) de entendimento do narcisismo a partir de 1914 e 1923, Figueiredo lembra sua preocupação pioneira em considerar a importância das falhas no investimento narcísico, no início da vida, como fator desencadeador de uma patologia narcísica. Na sequência Figueiredo se refere a Ferenczi, representante máximo de positivação do narcisismo como condição de vida, que dependeria essencialmente do investimento do ambiente no momento ainda das trocas pré-pulsionais, pré-objetais. Com Ferenczi, inaugura-se uma nova dualidade constitutiva do psiquismo que se apresenta, por um lado, derivada da indiferenciação e dependência inicial do ambiente/objeto primário e, por outro, das primeiras trocas pulsionais com o outro no contexto de uma incipiente diferenciação eu-objeto, e é a partir de Ferenczi que as neuroses narcísicas passam definitivamente a ter lugar de direito na clínica psicanalítica. Ainda dentro da tradição freudiana, Figueiredo se refere a Lacan, autor que se diferencia radicalmente dos anteriores na medida em que atribui ao eu narcísico uma origem especular ilusória, constituindo-se, então, como fonte de alienação nas identificações secundárias que passa a determinar; sendo, também, responsável pela intensa agressividade narcísica presente nas atitudes beligerantes, na inveja, no ressentimento assim como também nas paixões amorosas. Em resumo, como lembra Figueiredo, para Lacan
o eu é fator de defesa e impedimento ao pensar e se apresenta como tenaz resistência à análise sob a forma das transferências negativas. No entanto, sua distinção entre o eu ideal e o ideal do eu é contribuição importante para o estudo do narcisismo.

Entrando na década de 70, Figueiredo aponta a importância de Kohut, criador da Psicologia do Self e autor de uma teoria do narcisismo extensa e complexa, autor que retoma o conceito hartmanniano de self para a conceitualização dos selfobjetos e postula as transferências narcísicas (especulares e idealizadoras), ferramentas clínicas indispensáveis na análise dos adoecimentos narcísicos. Do ponto de vista metapsicológico, Kohut, no rastro de Ferenczi, postula linhas paralelas de desenvolvimento entre narcisismo e investimento objetal, posição nem sempre aceita por outros autores da psicanálise. Kernberg, por sua vez, representante da tradição freudiana/kleiniana, era crítico ferrenho de Kohut de quem discordava quanto à postulação de linhas paralelas de desenvolvimento narcísico e objetal e, principalmente, pela não consideração da pulsão de morte no entendimento dos transtornos narcisistas. Com seu conceito de organização narcísica patológica como sistema de defesas primitivas e resistentes derivadas da ação das pulsões destrutivas, justificava seu prognóstico pessimista quanto à análise dos pacientes narcisistas.

Na sua apreciação da contribuição kleiniana Figueiredo avisa, de início, que Klein não trabalhou com o conceito de narcisismo primário, tendo defendido a existência da relação de objeto desde os primórdios e, passa então a tomar Rosenfeld como representante da visada kleiniana sobre o narcisismo. Rosenfeld, compartilhando das posições de Kernberg e Green, argumentava a favor da articulação entre narcisismo e pulsão de morte que se apresentaria principalmente nos ataques destrutivos à diferença ameaçadora do objeto e que denominava de narcisismo destrutivo, fonte de resistente reação terapêutica negativa na análise. Aqui Figueiredo estabelece diferença importante entre Rosenfeld e Klein, por um lado, que argumentavam serem os adoecimentos narcísicos principalmente tributários de uma dinâmica pulsional convulsiona da e destrutiva, e, por outro lado, Kohut e Ferenczi, teóricos que atribuíam papel predominante às experiências traumáticas primitivas com os objetos no
desencadeamento de patologia narcísica.

André Green é o autor que, nos rastros de Federn, Fenichel e de uma leitura winnicottiana de Ferenczi – como lembra Figueiredo – dá outro destino à oposição acima apresentada, postulando uma articulação irredutível entre pulsão e objeto que constitui o palco da ação do narcisismo na sua dupla face: enquanto narcisismo de vida, no seu movimento de aproximação do Um do narcisismo primário, e enquanto narcisismo de morte, na busca do Zero de excitação psíquica. O lugar do objeto é crucial na determinação do rumo tomado pelo narcisismo como bem o demonstra a clínica do vazio constituída por estruturas não neuróticas que evidenciam a falha do investimento libidinal pelo objeto primário o que, paradoxalmente, impede seu apagamento, atrapalhando a constituição da estrutura enquadrante e abrindo o caminho para a ação do narcisismo negativo, responsável pelos mecanismo de desobjetalização e desligamento.. Falhas na construção da estrutura enquadrante afetam a capacidade de representação e também, como bem lembra Figueiredo, a construção do duplo limite e a internalização das funções de continência, mediação e organização dos processos somatopsíquicos. Figueiredo fecha sua apresentação do narcisismo com uma referência a Roussillon e seu conceito de transtorno narcísico-identitário que se caracteriza pela experiência dramática de uma amputação de si mesmo, efeito das cisões violentas que impedem a construção dos envoltórios psíquicos e afetam drasticamente o processo de apropriação e simbolização, categoria clínica central na clínica e na pesquisa sobre as patologias narcísicas da atualidade. Finalizando o capítulo Figueiredo nos presenteia com polaridades teóricas que derivadas de seu percurso sobre os 100 anos do conceito de narcisismo que certamente nos servirão de balizas preciosas no aprofundamento de pesquisa sobre o narcisismo.

No igualmente extenso capítulo seguinte A psicanálise e o sofrimento psíquico na atualidade, Figueiredo. oferece ao leitor uma hipótese densa e bem construída sobre o que denomina de posição maníaca coletiva característica do sistema hipomaníaco de defesa coletiva (FIGUEIREDO, 2018, p. 66) em que se transformou a sociedade contemporânea – cuja dinâmica psíquica apresenta com rigor – utilizando-se, para tanto da perspectiva freudiana sobre o narcisismo, como pano de fundo, e das contribuições kleiniana e winnicottiana como ferramentas conceituais.

Considerando que há diferenças significativas entre regimes sócio-político-culturais no que tange aos processos de saúde ou de adoecimento que pro movem também quanto aos recursos simbólicos (instituições, arte, literatura) de que dispõem, que podem se apresentar como objetos transformacionais em tempos extremados, Figueiredo lança a hipótese de que a negação onipotente de seus bastidores (cf. epígrafe) em que se vê imersa a sociedade contemporânea, é sinal inegável da defesa maníaca, com suas fantasias de reparação e destruição, que caracteriza o contexto contemporâneo. Recorre, então, a Klein e Winnicott para lembrar que há formas benignas de defesa maníacas facilitadoras do atravessamento da posição depressiva, e formas malignas como a recusa e o ataque ao contato com experiências, lembranças, pensamentos e, principalmente, como negação da dor, da fragilidade, das perdas, do estado inicial de dependência absoluta, da negação da “morte dentro” (FIGUEIREDO, 2018, p. 64). É justamente esta negação maníaca que denuncia a existência do fundo depressivo, gerador do movimento ascensivo, para cima, e da fuga
para a realidade externa, para fora, formas maníacas de impedir o contato com o mundo interno. São os tropeços e as falhas na posição esquizoparanoide, na emergência do narcisismo, que ao intensificar as angústias de morte e aniquilamento prejudicam e até mesmo impedem a passagem pela posição depressiva, deslanchando intensas defesas maníacas contra a morte fora e dentro, acompanhadas pelas identificações projetivas. Este cenário afeta preocupantemente o início das relações com os objetos totais e a triangulação edípica, exacerbando situações de exclusão e inclusão nas relações edípicas, o que leva Figueiredo a afirmar que “há uma morte operando no bojo de qualquer experiência absoluta” (Id., ibid., p. 73). Este processo aniquilador resulta na constituição de um espaço psíquico pessoal habitado pela “morte dentro” (Id., ibid.,p. 75), um fundo depressivo que desencadeia a negação maníaca das mortes internas como uma forma de reparação narcísica compulsiva, na impossibilidade de se fazer o luto. Este cenário psíquico que configura um quadro narcísico evidentemente oferece forte resistência multifacetada ao processo de análise, principalmente no que se refere à autossuficiência que frequentemente assume a forma de uma defesa maníaca tenaz, viés pelo qual, como Figueiredo sugere, poderíamos passar a reavaliar a reação terapêutica que diz respeito, ao sentimento de culpa inconsciente, presente nas neuroses de transferência. Resumindo, Figueiredo afirma que “se hoje, enfim, a psicanálise continua a ser uma peste, não é mais porque põe a descoberto a sexualidade inconsciente. É porque intima a pensar, a fazer contato com o que está sendo negado de forma onipotente” (Id., ibid, p. 79). E continua em concordância com André Green “o sistema de defesa maníaca é um ataque ao pensamento e ao “aparelho de pensar” (Id., ibid., p. 79).

Continuando a apresentação da defesa maníaca, agora mais especificamente em relação ao cenário atual da sociedade contemporânea, Figueiredo identifica a presença constante do fundo depressivo que se faz notar através “da evitação coletiva e do mascaramento das mortes e agonias indicativas [do que] poderíamos chamar de ‘psedovitalidade’ maníaca” (FIGUEIREDO, 2018, p. 65), trecho que nos remete quase imediatamente ao que presenciamos no contexto atual da sociedade brasileira. A atitude do workaholic, a “medicalização da existência” (Id., ibid., p. 66), o uso da violência, e até mesmo a angústia como defesa paradoxal contra a agonia e a exposição ao perigo (esportes radicais, por exemplo) que, por sua vez, pode servir de defesa contra a angústia, constituem apresentações da defesa maníaca amplamente difundidas que Figueiredo descreve com destreza oferecendo ao leitor um panorama detalhado do sistema defensivo maníaco coletivo.

Nos três capítulos seguintes Figueiredo se distancia de um enfoque teórico-clínico no sentido estrito, passando a tomar o narcisismo como prisma de análise de produções da cultura. Assim, no capítulo intitulado Arranjos narcisistas na conjugalidade. Reflexões a partir de “O reino da beleza”, de Denys Arcand, ele oferece ao leitor perspicaz leitura psicanalítica do filme de Arcand sob a ótica do narcisismo. Denominando os personagens principais apenas como o arquiteto e sua esposa e tomando a articulação entre narcisismo e defesas maníacas como objeto de análise, Figueiredo aborda tanto a dimensão intrapsíquica dos personagens quanto a dimensão intersubjetiva da relação entre eles no que se refere ao movimento de reparação narcísica que ambos encenam no seu arranjo conjugal. No caso do arquiteto as defesas
maníacas, como tentativas de “conserto do eu” (Id., ibid., p. 84) se manifestam pela onipotência e pela negação da realidade, marcas registradas do narcisismo, que caracterizam o estado hipomaníaco permanente em que vive e que se transforma numa tarefa de vida, manifestando-se através da preocupação exagerada com a beleza “A feiura é um crime contra a Humanidade” (Id., ibid., p. 87), a ordem e o glamour. A esposa, por outro lado, na sua tentativa de reparação narcísica, encena um papel complementar ao do arquiteto em que predominam a depressão, a desvitalização e o declínio, processo cujo ápice se dá numa tentativa de suicídio. Nela presenciamos a ação violenta do narcisismo de morte na sua busca do zero de tensão e na experiência-limite do vazio subjetivo, deixando o caminho aberto para o marido no seu movimento de ascensão, grandiosidade e sucesso, o que demonstra o acerto da hipótese de Figueiredo, segundo a qual “alguma dinâmica narcisista intersubjetiva se torna indispensável na manutenção da dinâmica intrapsíquica de cada um em seu adoecimento narcisista individual” (FIGUEIREDO, 2018, p. 94).

Dando prosseguimento a uma discussão do narcisismo a partir de um “caso” clínico, desta vez literário, Figueiredo redige o capítulo seguinte fazendo uso do livro autobiográfico Gangorra (SAWAYA, R., 2017), título bastante representativo da longa e dramática experiência da autora como paciente bipolar, período em que apresentava episódios depressivos e maníacos, intercalados por um estado hipomaníaco. Figueiredo analisa não apenas do conteúdo do livro, mas também, e de forma bastante precisa, o estilo da escrita coalhada de excessos, repetições e superlativos que expressavam a turbulência interna agonística de Regina, justificando o título do capítulo: A vida no superlativo. A partir de informações esparsas extraídas do relato, Figueiredo constrói uma hipótese clínica sobre Regina avisando que está apenas tecendo “considerações sobre seu sofrimento e... suas relações com a psiquiatria e a medicação” (FIGUEIREDO, 2018, p. 109), tema que aborda de forma genérica no capítulo seguinte. No relato de Regina, Figueiredo identifica situações traumáticas de abandono e intrusão assim como a presença de figuras paternais assustadoras (pai como “trator”, os gritos lancinantes da mãe) que exacerbaram a condição paradigmática inicial de desamparo resultando no que Figueiredo denomina “desamparo desassistido”. Este contexto de constituição subjetiva impediu a elaboração das fantasias de onipotência infantil dando origem a uma estruturação narcísica em que essa onipotência infantil retorna, e assim sobrevive, nas defesas maníacas e depressivas onipotentes que se alternavam como única alternativa de sobrevivência psíquica. Na leitura de Figueiredo o “encastelamento depressivo” (Id., ibid., p. 112) e os “extravios maníacos” (loc. cit.) de Regina denotariam a impossibilidade da constituição da depressividade (FÉDIDA, 2002) como capacidade essencial de autorregulação que permite proteger contra os excessos pulsionais traumatizantes. Esta falha na constituição do psiquismo foi obturada pelo uso indevido e autoadministrado da medicalização que proporcionava o ressurgimento da onipotência infantil não elaborada que, agora, entra em conluio com a fantasia de medicalização, derivada, desta vez, da onipotência médica e presente no exercício de uma “medicina hipomaníaca” (FIGUEIREDO, 2018, p. 115). Figueiredo finaliza sua apresentação apontando para a diferença radical das temporalidades psicanalítica e psiquiátrica.

Na psicanálise necessita-se de um tempo indeterminado, que propicie o contato com o mundo subjetivo, onde o trabalho psíquico possibilite o aparecimento da transferência e a emergência da depressividade e da autorregulação, o que implica tolerar os estados maníacos e depressivos, indicativos preciosos da continuidade de vida psíquica. A psiquiatria, por outro lado, tem pressa, visa o alívio imediato que silencia o sofrimento, provoca o desaparecimento do sintoma e impede a constituição de um tempo/espaço ventilado de circulação de afetos e representações, material bruto de um processo de análise que exige um trabalho psíquico único e indispensável para a reparação dos “narcisismos maltratados” (FIGUEIREDO, 2018, p. 116).

A continuação da discussão sobre o uso da medicalização na sociedade contemporânea é o tema do capítulo seguinte A fantasia de medicalização, suas origens, força e implicações no qual Figueiredo afirma que a medicalização vem assumindo caráter de defesa hipomaníaca. Oferece, então, a teoria da saúde de Winnicott como contraposição cada vez mais necessária no contexto atual, trabalhando os conceitos de cuidado e depressividade com a teoria do cuidado, o conceito de depressividade e a própria noção de saúde winnicottiana que não exclui o sofrimento e abrange momentos de integração, não integração e desintegração, o que implica na confiança recíproca entre sujeito e ambiente.

Chegamos, assim, ao Epílogo Escutas em análise. Escutas poéticas que Figueiredo inicia apresentando a distinção crucial na psicanálise entre ética (posição do analista) e técnica (procedimento clínico) afirmando, em seguida que, enquanto a ética formulada por Freud tem se mantido ao longo do tempo, a técnica vem sofrendo modificações importantes como efeito das transformações metapsicológicas, psicopatológicas e clínicas suscitadas principalmente pela emergência das patologias narcísicas. A seguir nos oferece uma história sensível da escuta analítica iniciando com Freud e a escuta livremente flutuante do inconsciente recalcado (1º movimento) que se modifica, a partir de 1914, passando a privilegiar o trabalho de interpretação das resistências inconscientes (2º movimento) frente às dificuldades apresentadas pelos pacientes difíceis aos quais Abraham, Balint e outros também respondem oferecendo uma escuta gestáltica ou escuta empática que abrange o conjunto mutifacetado de resistências apresentadas pelo paciente. A escuta kleiniana (3º movimento), por sua vez, privilegia a interpretação das identificações projetivas a partir da contratransferência, enquanto Bion (4º movimento) postula uma escuta imaginativa através da rêverie do analista na posição ética de “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia” (FIGUEIREDO, 2018, p. 144). É com a escuta empática dos elementos silenciosos e silenciados, na tentativa de acessar a morte dentro, que Kohut, Winnicott e Ferenczi (5º movimento) respondem aos desafios clínicos que os pacientes difíceis apresentam, com destaque para a importância que Ferenczi concede ao tato e ao “sentir com” no seu entendimento da escuta empática, ferramenta indispensável nas diferentes estratégias de escuta que a clínica das patologias narcísicas requer. O Epilogo termina com uma preciosa e sofisticada analogia entre a escuta poética e a escuta psicanalítica que finaliza com uma apreciação sensível do poema Confiança de Paul Celan. Nas palavras de Figueiredo:

Diz-nos Celan: “o poema concede ao outro uma parte de sua verdade”. É a parte que nos cabe, como leitor e, em muitos casos, como analista, acrescentar, per via de porre – a nossa mão estendida, a nossa “interpretação”, a nossa resposta (FIGUEIREDO, 2018, p. 157).

A psicanálise: caminhos no mundo em transformação é contribuição inestimável para aqueles, dentre nós, que se deparam com os impasses e os desafios de uma clínica psicanalítica espinhosa das patologias narcísicas num contexto político-social igualmente desafiador e adoecido.

Publicado
07-08-2020
Como Citar
GARCIA, C. A psicanálise. Cadernos de Psicanálise (CPRJ), v. 42, n. 42, p. 245-254, 7 ago. 2020.