Tema do Ano – 2026
Espectros da psicanálise: herança e emancipação
“Toda época impõe suas fronteiras ao analista,
e é dentro delas que seu trabalho deve encontrar novos caminhos.”
(Freud, 1919)
Desde sua origem, a psicanálise nasce como um gesto de emancipação. Freud rompeu com o saber médico e moral de seu tempo ao escutar o que não se escutava – o sintoma, o sonho, o lapso, o sofrimento que não encontrava linguagem. Dar voz ao inconsciente foi um ato político: afirmar que há verdade onde o discurso dominante via apenas desvio.
Mas, como lembra Derrida em Espectros de Marx, toda herança é espectral. O que recebemos do passado não chega em presença plena: vem acompanhado de rastros, ausências e dívidas. “Herdar é escolher”, escreve Derrida – e essa escolha é sempre ética. Ele distingue duas formas de lidar com os espectros: exorcizá-los, negando sua presença, ou acolhê-los, reconhecendo que nos habitam. Essa distinção ressoa diretamente na ética analítica. A clínica, nesse sentido, aproxima-se do gesto derridiano de oferecer hospitalidade ao espectro – reconhecer aquilo que retorna e nos interpela, em vez de tentar exorcizá-lo. Ao se tornar tradição, a psicanálise produziu seus próprios “espectros” – experiências que ficaram fora de seu campo de escuta. Marcada pelo contexto moderno em que surgiu, deixou de reconhecer certas heranças sociais e históricas, como o racismo, o patriarcado e a violência epistêmica. Emancipar-se implica reconhecer-se como um “arquivo assombrado” e escutar os espectros que interrogam o campo psicanalítico, mantendo-se viva, por meio deles, como gesto de justiça, hospitalidade e reinvenção.
Reconhecer seus limites é situá-la na história que a produziu, não julgá-la de fora dela. Esse reconhecimento também nos permite perguntar de quais conceitos precisamos hoje para compreender o sofrimento profundo de um sujeito excluído, invisibilizado e inferiorizado numa sociedade marcada por desigualdades estruturais e pelo racismo estrutural. Que léxico da psicanálise precisa ser modificado para dar conta dos modos de subjetivação e dos sofrimentos advindos dessas vivências traumáticas?
Em Caminhos da terapia analítica (1919), Freud reconhece que a psicanálise carrega os limites de sua própria época e que, por isso, não pode permanecer fixa: ela se transforma continuamente em resposta ao que a clínica apresenta. Cada encontro com o sofrimento psíquico exige revisões, deslocamentos e invenções. Desde o início, portanto, a psicanálise se constitui como uma prática em movimento, sensível às exigências da cultura e às experiências da clínica.
É nesse movimento entre herança e emancipação que ela é novamente interpelada: longe de ameaçar seu gesto inaugural, essa interrogação o reinscreve ao reafirmar a constituição do sujeito como processo relacional e historicamente situado. Freud nos ensinou que a escuta é o lugar onde o sujeito se humaniza; hoje, essa escuta precisa ser expandida para reconhecer as lacunas e os silêncios produzidos por sua própria tradição.
Referências Bibliográficas
DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: O Estado da Dívida, o Trabalho do Luto e a Nova Internacional. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.
FREUD, Sigmund. Caminhos da terapia analítica (1919). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição Standard Brasileira, v. XVII).
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